Tronco Antônio de Mariz (1537–1584)

Genealogia de uma linhagem nobre portuguesa que se estabeleceu no Brasil durante o século XVI, fundando a cidade do Rio de Janeiro e perpetuando uma ascendência que remonta à nobreza medieval. Reconstrução baseada em fontes primárias como o Nobiliário de Felgueiras Gayo, a Nobiliarquia Fluminense, a Genealogia Paulistana e registros paroquiais.

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Nota Histórica: A Nobreza Portuguesa e o Brasil Colonial

Este tronco genealógico desvela uma realidade fundamental da história colonial brasileira: a quase completa ausência de nobreza portuguesa em terras americanas. Antônio de Mariz, fidalgo de baixa estirpe, representa uma exceção notável — um homem de sangue nobre que, por sua condição secundária na hierarquia aristocrática, viu-se impelido a buscar fortuna e posição no ultramar. Sua participação na fundação do Rio de Janeiro em 1565, ao lado de Estácio de Sá, insere-o no panteão dos primeiros colonizadores, mas sua biografia revela mais do que simples pioneirismo: demonstra o profundo desprezo que a alta nobreza portuguesa nutriu pelo Brasil, tratado como mero fornecedor de riquezas, jamais como extensão civilizacional do reino.

Ao contrário das elites paulistas, que raramente podem traçar ascendência até casas reais europeias, a linhagem de Antônio de Mariz conecta-se à nobreza medieval portuguesa, chegando a Dom Martim Afonso O Chichorro, filho bastardo do Rei Afonso III de Portugal. Essa distinção, contudo, não deve ser interpretada como mérito ou privilégio. Como bem demonstra a demografia histórica, todos os seres humanos vivos descendem de nobres: na Europa, praticamente qualquer europeu é descendente de Carlos Magno; no Brasil, dezenas de milhões compartilham a ascendência de Antônio de Mariz. O estudo desta linhagem tem, portanto, finalidade histórica e genealógica, não celebratória. Ele visa tão somente que a família Gontijo — e todos os interessados — possam conhecer, com rigor documental, as origens profundas de sua árvore genealógica.

A conexão deste tronco com a família Gontijo se dá através do Ramo Francisca de Paula Azeredo Coutinho, que liga a descendência de Antônio de Mariz ao tronco de Manoel da Costa Gontijo I, estabelecendo um elo entre a fundação do Rio de Janeiro e a ocupação das Minas Gerais no século XVIII.

Observação: É possível que algumas datas de nascimento e morte estejam erradas (página em construção).

Referência: Esta linhagem está documentada no Nobiliário de Felgueiras Gayo (Tomo XVIII, Marizes), na Nobiliarquia Fluminense de Macedo Soares, e nas obras de Carlos G. Rheingantz sobre as primeiras famílias do Rio de Janeiro.

Geração 1: Antônio de Mariz (c. 1536 – 1584)

Antônio de Mariz nasceu em Barcelos, Portugal, por volta de 1536. Filho de Afonso Lopes de Mariz, senhor da Quinta do Paço Velho em Mariz, Barcelos, e fidalgo da Casa Real, e de Dona Branca de Mello, descendente do rei Afonso III de Portugal. Antônio pertencia à baixa nobreza portuguesa — uma posição que, embora lhe conferisse status, não lhe garantia fortuna ou influência na metrópole.

No século XVI, a Coroa portuguesa via o Brasil como um empreendimento comercial, não como uma extensão do reino. Nobres de alta estirpe raramente se aventuravam no ultramar, preferindo as cortes e os cargos administrativos em Portugal. Foi nesse contexto que Antônio de Mariz, movido pela necessidade de ascensão social e econômica, integrou a expedição de Estácio de Sá que, em 1565, fundou a cidade do Rio de Janeiro.

Chegando ao Brasil, Antônio destacou-se como provedor da Fazenda Real e juiz da Alfândega (1568-1573), e posteriormente como vereador do Rio de Janeiro em 1577. Foi armado cavaleiro pelo governador Antônio de Salema. Participou da Guerra de Cabo Frio, que visava eliminar o domínio franco-tamoio no litoral norte da capitania.

Casou-se por volta de 1566 com Isabel Velho (c. 1541-1619), natural de Ponte de Lima, Viana do Castelo. O casal estabeleceu-se em terras na região da atual Ponte dos Marinheiros (próximas à Av. Presidente Vargas) e em Niterói, onde foram proprietários de vastas extensões. Martim Afonso Arariboia, o famoso cacique temiminó, recebeu de Mem de Sá, em 1567, uma sesmaria em terras que haviam pertencido a Antônio de Mariz e Isabel Velho.

Antônio faleceu em 1584, vítima de uma emboscada armada por índios hostis na Lagoa da Sentinela, em Niterói. Seu corpo nunca foi recuperado, e sua morte prematura, aos 48 anos, marcou o fim de uma trajetória que, embora breve, deixou profunda marca na história do Rio de Janeiro.

Geração 1 – Fundador no Rio de Janeiro

Antônio de Mariz

(c. 1536, Barcelos – 1584, Niterói)

Isabel Velho

(c. 1541 – 1619)

Fontes:

  • RHEINGANTZ, Carlos G. Primeiras Famílias do Rio de Janeiro (Séculos XVI e XVII). Rio de Janeiro: Livraria Brasiliana, 1965. Tomo II, p. 519. Visualize aqui.
  • GAYO, Felgueiras. Nobiliário de Famílias de Portugal. Tomo XVIII, Marizes, § 1 N 14, p. 74. Visualize aqui.

Geração 2: Afonso Lopes de Mariz (c. 1470 – ?)

Afonso Lopes de Mariz, filho de Antônio de Mariz, foi senhor da Quinta do Paço Velho em Mariz, Barcelos, e fidalgo da Casa Real. Casou-se com Branca de Mello, descendente do rei Afonso III de Portugal, unindo a linhagem Mariz à nobreza medieval portuguesa.

Poucos registros detalhados sobre sua vida sobreviveram, mas sua posição como senhor de terras e fidalgo da Casa Real atesta sua importância na estrutura social portuguesa do final do século XV e início do XVI.

Geração 2 – Pai de Antônio de Mariz

Afonso Lopes de Mariz

(c. 1470 – ?)

Branca de Mello

(c. 1470 – ?)

Fontes:

  • GAYO, Felgueiras. Nobiliário de Famílias de Portugal. Tomo XVIII, Marizes, § 1 N 14, p. 74. Visualize aqui.

Geração 3: Fernão Pinto de Melo (c. 1440 – ?)

Fernão Pinto de Melo, pai de Branca de Mello, foi um nobre português de linhagem antiga. Casou-se com D. Izabel de Miranda de Berredo, filha de Vasco Álvares Pereira, 1.º Senhor de Fermedo, e de D. Izabel de Miranda (Barrameda Miranda). Esta união conectou a família Pinto de Melo a uma das mais tradicionais linhagens da nobreza portuguesa.

Fernão Pinto de Melo era filho de Gonçalo Vaz Pinto, que por sua vez era filho de Gonçalo Vaz Pinto e Catarina de Mello (também conhecida como Catarina Melícia de Melo).

Geração 3 – Avô de Antônio de Mariz

Fernão Pinto de Melo

(c. 1440 – ?)

Izabel de Miranda de Berredo

(? – ?)

Fontes:

  • GAYO, Felgueiras. Nobiliário de Famílias de Portugal. Tomo XXIII, Pintos, § 3 N8 e N9, p. 42-44. Visualize aqui.

Geração 4: Gonçalo Vaz Pinto (c. 1410 – ?)

Gonçalo Vaz Pinto, pai de Fernão Pinto de Melo, foi um nobre português que se destacou por seu casamento com Guiomar de Sousa e Castro, filha de Fernão de Sousa, Senhor de Gouvea (Fernão de Sousa Chichorro), e de sua mulher Mécia de Ataíde Castro. Esta união trouxe para a linhagem Pinto o sangue dos Sousas, uma das mais antigas e prestigiosas casas nobres de Portugal.

Gonçalo Vaz Pinto era o 2.º Senhor de Ferreiros, e sua esposa Guiomar era filha de Fernão de Sousa Chichorro, que por sua vez era descendente direto de Dom Martim Afonso O Chichorro, filho bastardo do Rei Afonso III de Portugal.

Geração 4 – Bisavô de Antônio de Mariz

Gonçalo Vaz Pinto

(c. 1410 – ?)

Guiomar de Sousa e Castro

(c. 1415 – ?)

Fontes:

  • GAYO, Felgueiras. Nobiliário de Famílias de Portugal. Tomo XXIII, Pintos, § 1 N8 e N9, p. 42-44. Visualize aqui.
  • GAYO, Felgueiras. Nobiliário de Famílias de Portugal. Tomo SOUZAS, § 67 N18, p. 71-73. Visualize aqui.
  • SOUSA, António Caetano de. Historia genealogica da Casa Real Portugueza. Tomo XII, Parte II, Livro XIV, 815. Visualize aqui.

Geração 5: Fernão de Sousa Chichorro (c. 1380 – c. 1492)

Fernão de Sousa Chichorro, Senhor de Gouvea, foi o pai de Guiomar de Sousa e Castro. Filho de Martim Afonso de Sousa, 4.º Senhor de Mortágua, e de Violante Lopes de Távora, Fernão pertencia a um dos mais antigos e influentes ramos da nobreza portuguesa, descendente direto de Dom Martim Afonso O Chichorro.

Sua posição como Senhor de Gouvea e sua ascendência real conferiam-lhe grande prestígio na corte portuguesa do século XV. Casou-se com Mécia de Ataíde Castro, filha do 1.º Conde de Atouguia, D. Álvaro Gonçalves de Ataíde.

Geração 5 – 4.º Avô de Antônio de Mariz

Fernão de Sousa Chichorro

(c. 1380 – c. 1492)

Mécia de Ataíde Castro

(? – ?)

Fontes:

  • GAYO, Felgueiras. Nobiliário de Famílias de Portugal. Tomo SOUZAS, § 332 N18, p. 236-237. Visualize aqui.

Geração 6: Martim Afonso de Sousa, 4.º Senhor de Mortágua (c. 1385 – 1455)

Martim Afonso de Sousa, 4.º Senhor de Mortágua, foi o pai de Fernão de Sousa Chichorro. Filho bastardo de Martim Afonso de Sousa, 2.º Senhor de Mortágua, e de Aldonça Rodrigues de Sá, foi legitimado pelo Rei João I em 2 de janeiro de 1443, conforme registrado na Torre do Tombo (L. 3 dos Registos do dito Rei, p. 66).

Sua legitimação permitiu que sua linhagem fosse reconhecida como parte da nobreza portuguesa, e seu casamento com Violante Lopes de Távora consolidou a posição da família na hierarquia social do reino.

Geração 6 – 5.º Avô de Antônio de Mariz

Martim Afonso de Sousa, 4.º Senhor de Mortágua

(c. 1385 – 1455)

Violante Lopes de Távora

(? – ?)

Fontes:

  • GAYO, Felgueiras. Nobiliário de Famílias de Portugal. Tomo SOUZAS, § 332 N17, p. 236-237. Visualize aqui.

Geração 7: Martim Afonso de Sousa, 2.º Senhor de Mortágua (c. 1340 – c. 1405)

Martim Afonso de Sousa, 2.º Senhor de Mortágua, foi o pai do 4.º Senhor de Mortágua. Filho de Martim Afonso de Sousa Chichorro II e de Aldonça Annes de Briteiros, deu continuidade à linhagem dos Sousas, que se consolidaria como uma das mais importantes casas nobres de Portugal.

Seu casamento com Aldonça Rodrigues de Sá (também registrada como Aldonça Roiz de Sá) gerou a descendência que, através de seu filho bastardo, legitimado por D. João I, perpetuaria o sangue real na família.

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Nota: Sobre o Casamento de Martim Afonso de Sousa

Segundo Gayo (GAYO, Tomo SOUZAS, p. 69), Martim Afonso de Sousa teve apenas dois casamentos, mas não foi casado com Aldoança Roiz, o que nos leva a entender que se tratava de relacionamento extra-conjugal que gerou prole que, em todo caso, resultou na linhagem de Martim Afonso de Sousa, 4o senhor de Mortágua.

Geração 7 – 6.º Avô de Antônio de Mariz

Martim Afonso de Sousa, 2.º Senhor de Mortágua

(c. 1340 – c. 1405)

Aldonça Rodrigues de Sá

(? – ?)

Fontes:

  • GAYO, Felgueiras. Nobiliário de Famílias de Portugal. Tomo SOUZAS, § 66 N16, p. 69-70. Visualize aqui.

Geração 8: Martim Afonso de Sousa Chichorro II (c. 1280 – c. 1340)

Martim Afonso de Sousa Chichorro II, pai do 2.º Senhor de Mortágua, foi o responsável por consolidar a linhagem Chichorro como um ramo reconhecido da nobreza portuguesa. Filho de Dom Martim Afonso O Chichorro (filho bastardo do Rei Afonso III) e de Inez Lourenço de Sousa, Martim Afonso Chichorro II herdou o sobrenome e a posição social de seu pai.

Casou-se com Aldonça Annes de Briteiros, unindo a linhagem real dos Chichorros à nobreza do norte de Portugal, consolidando a posição da família nas cortes medievais portuguesas.

Geração 8 – 7.º Avô de Antônio de Mariz

Martim Afonso de Sousa Chichorro II

(c. 1280 – c. 1340)

Aldonça Annes de Briteiros

(? – ?)

Fontes:

  • GAYO, Felgueiras. Nobiliário de Famílias de Portugal. Tomo SOUZAS, § 66 N15, p. 69-70. Visualize aqui.

Geração 9: Dom Martim Afonso O Chichorro (c. 1250 – c. 1313)

Dom Martim Afonso O Chichorro foi um dos mais notáveis bastardos reais da história de Portugal. Filho do Rei Afonso III de Portugal e de Madragana Bat Aloandro (também conhecida como Mourana Gil), uma moura de origem judaica sefardita, filha do alcaide de Faro, Aloandro Ben Bakr ibn Yahya.

Casou-se com Inez Lourenço de Sousa, filha de Lourenço Soares de Valadares e de Maria Mendes de Sousa, consolidando sua posição na nobreza portuguesa. Sua linhagem, através de seus descendentes, perpetuou-se em diversas casas nobres de Portugal e, posteriormente, do Brasil.

O Chichorro — apelido que significa "pessoa magra e esguia" — tornou-se o sobrenome de uma das mais antigas linhagens portuguesas, que se estenderia por gerações, chegando até os dias atuais através de famílias como os Gontijo.

Embora a tentação de seguir os fios genealógicos que partem de Dom Martim Afonso e de sua esposa seja grande, afinal, por parte do rei Afonso III chega-se ao primeiro monarca português, Afonso Henriques, e a figuras como Eleanor da Inglaterra, neta de Henrique II, cuja árvore se estende até Alfredo, o Grande; por parte de Inez Lourenço de Sousa, os ramos alcançam Hugo Capeto, Carlos Magno e o próprio Rollo da Normandia, optei por não aprofundar essas ascendências neste espaço. Não por desinteresse ou menosprezo, mas porque elas já são exaustivamente documentadas e comentadas por genealogistas de ofício. Apesar de Antônio de Mariz ser um dos troncos mais antigos a chegar ao Brasil, sua linhagem, justamente por sua condição de fidalgo, é também uma das mais fáceis de rastrear em fontes históricas. Repetir aqui o que já está amplamente disponível seria mais cansativo do que esclarecedor. Prefiro, portanto, concentrar-me no que esta história tem de particular e, com isso, evitar transformar o site em mais uma repetição de árvores que o leitor pode encontrar em qualquer nobiliário bem feito.

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Nota: A Origem de Madragana Bat Aloandro (Mourana Gil)

A origem étnico-religiosa de Madragana Bat Aloandro (ou Mourana Gil) e de seu pai Aloandro Ben Bekar (ou Ben Bakr) não é consensual entre os historiadores. Crônicas do século XVI, como as de Duarte Nunes de Leão, apresentam-na como moura (muçulmana de origem árabe-berbere). Porém, no século XVIII, António Caetano de Sousa contestou essa versão na História Genealógica da Casa Real Portuguesa, defendendo que ela seria provavelmente moçárabe (cristã ibérica de rito moçárabe). Algumas genealogias mencionam ainda possível ascendência judaica sefardita. Devido à escassez de fontes contemporâneas e à mistura populacional típica do Algarve no período da Reconquista, sua identidade exata permanece incerta, sendo mais seguro considerá-la de origem local ibérica com influências culturais muçulmanas. Até o presente ano de 2026, não há documentos que confirmem se Mourana Gil era judia ou muçulmana.

Geração 9 – 8.º Avô de Antônio de Mariz

Dom Martim Afonso O Chichorro

(c. 1250 – c. 1313)

Inez Lourenço de Sousa

(? – ?)

Fontes:

  • GAYO, Felgueiras. Nobiliário de Famílias de Portugal. Tomo SOUZAS, § 66 N14, p. 69-70. Visualize aqui.

Fontes Primárias e Bibliografia